Abuso sexual infantil: O corpo da criança fala.

Em primeiro lugar, quando um predador (pedófilo) está no domínio de sua presa (criança), antes de atacá-la, ele se certifica de criar laços emocionais e afetivos, e um contexto de domínio sobre a vítima, (inclusive fazendo-a se sentir causadora da situação), de maneira tão sórdida e complexa, que raramente será delatado. Apesar do silêncio das vítimas, oriundo do medo e da insegurança ou mesmo pela não compreensão correta do que de fato está acontecendo, de maneira inconsciente, a criança submetida ao horror da violência sexual, deixa indícios claros de que não está bem. E é através de sinais físicos, psicológicos, comportamentais, motores, cognitivos e manifestações emocionais, que ela suplica por socorro.

A vítima é obrigada a conviver e ceder às investidas e domínio de seu algoz. Mesmo acuada, aterrorizada e insegura, com sentimentos de abandono, desamparo e desespero, é incapaz de delatar seu agressor, principalmente quando esse mesmo agressor é algum familiar, ou alguém muito próximo e íntimo de seus familiares. (Frisa-se que 80 % dos casos de abuso infantil, ocorrem dentro do seio da família, sendo praticados por pais, tios, avôs, primos, irmãos, padrinhos ou amigos íntimos da família, vizinhos e ou alguém que tenha contato direto com a criança e convívio contínuo). Em média 70% dos casos, quando descobertos, ocorriam há certo período de tempo, ou às vezes, com não apenas uma mesma criança na família.

Vejamos: se a criança está sofrendo tal violência dentro da própria família, é humanamente impossível que ela vá denunciar seu agressor naquele ambiente. Nesse contexto, atenta-se à questão do preparo da sociedade para identificar a vítima através da observação de seu comportamento, e, denunciar o crime. O problema maior, é que quando fala-se de abuso sexual contra crianças, dificilmente podemos apontar num primeiro momento, o autor. Os pedófilos não tem perfil psicológico pré-definido, classe social, instrução, profissão ou qualquer marca que nos sinalize quem são. E frequentemente são pessoas acima de qualquer suspeita, sociáveis, inteligentes e que circulam normalmente entre nós, sem deixar qualquer margem para suspeita. Descobre-se o crime, ao identificar a vítima.

Estar atento para a violência sexual é uma obrigação da sociedade. É dever de cidadania, é uma questão de ética, moral e dignidade, porque quem permite que uma criança tenha sua inocência roubada, sua dignidade brutalmente violentada, é tão culpado pelo crime, quanto o abusador. Não é necessário ser um especialista, um gênio ou perito para identificar a criança, provável vítima de abuso sexual, basta que se observe com atenção seu comportamento. Alguns indícios são quase incontestáveis e surgem como sinalização inconsciente, de um apelo desesperado por ajuda.

Observa-se que os sintomas, apesar de variarem de criança para criança, são basicamente os mesmos, com menores ou maiores agravantes, sendo eles:

  • Enurese (Descontrole na micção);
  • Encoprese (Descontrole na evacuação);
  • Vômito constante e dores estomacais;
  • Alterações bruscas e constantes de humor, quadros de depressão, apatia, tristeza profunda, isolamento social, ataques de fúria, choro descontrolado, súbitos ataques de pânicos em determinados locais ou na presença de um determinado adulto (provável abusador);
  • Regressões motoras;
  • Déficit de atenção,
  • Dificuldades de aprendizado e execução de tarefas que exijam aptidões mentais e/ou motoras;
  • Tendência à auto-mutilação e em determinadas circunstâncias ao suicídio;
  • Histeria e alterações na personalidade;
  • Alterações no peso (aumento ou redução);
  • Falta de higiene e cuidados com a aparência e corpo;
  • Baixíssima auto-estima e insegurança, em relação a si e ao mundo.
  • Lesões diversas e/ou anormalidades na genitália ou ânus;
  • Doenças sexualmente transmissíveis;
  • Gravidez;
  • Doenças somáticas, em especial dores de garganta, cabeça, barriga, pernas, braços e genitais sem patologia médica específica;
  • Conhecimento exagerado sobre a prática sexual, utilização precoce de sinais e/ou posturas eróticas que resultam em comportamento sexual inadequado para a idade (avaliar caso à caso);
  • Queda repentina no rendimento escolar.

Obs: Normalmente as crianças apresentam sintomas associados, raramente aparecem isolados.

Qualquer manifestação de dois ou mais sintomas, é um grave sinal de que algo muito errado está acontecendo com a criança, e deve haver intervenção imediata. Quanto mais cedo detectado o abuso, mais cedo a criança deixará de sofrer. Até os 7 anos de idade, a criança está construindo seu caráter e personalidade, está em fase de desenvolvimento neuronal, sócio-afetivo, psíquico e físico, formando os alicerces de sua integração com o meio, com a sociedade. Todas as experiências às quais a criança é submetida nessa fase, serão a base e parâmetros nos quais ela ira se nortear para agir. Sendo assim, qualquer situação de súbita violência imposta à criança, vai lesionar profundamente sua estruturação física, psíquica, emocional e social. Mesmo ainda não tendo compreensão do ocorrido, além dos sintomas imediatos, a médio e longo prazo, os efeitos decorrentes do trauma, tendem a se manifestar direta e/ou indiretamente em diversas vertentes, afetando principalmente a personalidade e a auto-estima do indivíduo.

Não há dúvidas de que a prevenção da violência sexual contra crianças é a principal preocupação e objetivos que visamos atingir, mas uma vez ocorrido o fato, além de trabalhar para cessá-lo o mais breve possível, é fundamental que a vítima seja assistida, amparada e cuidada, para que os danos e conseqüências do abuso sejam amenizados ao máximo, e quem sabe até mesmo superados (fato raro, observado em casos isolados, mas não impossível). Mais uma vez, vale ressaltar que a obrigação de combater os crimes ligados à pedofilia e zelar pela integridade de nossas crianças, é de todos nós! Temos o dever de ser a voz daqueles que não podem falar!

Omissão também é crime!

Para denunciar uma suspeita de abuso sexual, procure o Conselho Tutelar; Policias Civil e Militar; Delegacia da Mulher; Ministério Público (Promotoria de Justiça); ou Disque 100 (ligação anônima e gratuita).

Diga não à pedofilia!!!

Fonte: Texto retirado do site anjosguardioes.com

Sallime Chehade – Pedagoga,  www.diganaoapedofilia.com.br,  facebook.com/DigaNaoAPedofilia

 

3 Comentários

  1. Excelente artigo. Bastante abrangente, tocando em pontos importantíssimos para a identificação de uma criança vítima de violência. Vou repassá-lo.

  2. Sou prof. de ed. básica, em 2005 estava com uma turma de 2°ano e tinha um aluno bem miúdo, mas muito sorridente, asseado e cheiroso. Um dia as cças reclamaram que ele fez coco na calça e ainda dava risada. Conversei com as cças e com ele, porém já havia reparado que a alguns dias ele estava se apresentando com desleixo mas ñ falei nada para ñ constrange-lo. Até que na mesma semana ele tirou todo o miolo do lápis de cor preto, esfregou nas mãos e passou no rosto e corpo, quando as cças começaram a falar e eu olhei pra carinha dele tomei um choque. Só ali eu percebi que embora ele mantivesse o sorriso, ele estava em profundo sofrimento e tentava me mostrar o quanto se sentia sujo. Acalmei as cças, e sem o repreender levei-o ao banheiro, tirei a camiseta e o limpei com uma toalhinha e sabão, ele mantinha o sorriso mas seus olhos ñ havia brilho, a escola arrumou outra camiseta e nos voltamos pra sala. Enviei um bilhete à mãe comunicando os fatos e avisei a direção escolar. No dia seguinte ñ houve resposta …

    • … Conversando com o tio da perua, descobri que o menino ficava com várias outras cças numa casa do tipo “cuida-se de crianças”, mas que ele nunca via os adultos, apenas a presença de uma molecada grande circulando pela casa. Ligamos para os pais que foram imediatamente. Relatamos os fatos e as nossas desconfianças. A mãe muito simples disse apenas que estranhou o fato dele ñ querer tomar banho (coisa que ele adorava) e que também ele andava muito irritado e chorão mas ela achou que era manha. A família optou por não procurar a polícia por temerem represálias, pois os tais moleques pertenciam a uma comunidade vizinha e bastante violenta. Alegaram a tal dona da casa que estavam com problemas financeiros. Trocaram o irmão de 12a. de horário escolar para poder ficar com o pequeno e o pai se comprometeu a ir ve-los enquanto estavam a sós em casa. Diante de tudo, como houve prontidão da família em resolver o caso, fizemos o encaminhamento do aluno ao psicólogo.

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